RECOLEÇÃO
uma grande quantidade das plantas que crescem espontaneamente nos nossos terrenos são incrivelmente nutritivas e muitas têm propriedades medicinais
2024 - 2025
Primaveras
Primula acaulis (Primulaceae)
Primaveras, pascoinhas, Rosas-de-Páscoa, Qeijadinho, prímula, flor-da-doutrina, Barral, copinhos-de-leite, pão-de-leite, pão-e-queijo.
As folhas, disponíveis durante todo o inverno, comem-se cruas ou cozidas. As flores, que marcam o começo da primavera, comem-se também cruas ou cozidas. Assim que abertas, as flores cozem-se levemente e fermentam-se com água e açúcar, para produzir uma bebida alcoólica muito forte. Para além de ser utilizada fresca para fins medicinais, toda a planta pode ser colhida com três anos de idade e deixada a secar para uso posterior.
É eficaz contra espasmos e dores reumáticas. Por causa das saponinas, tem efeitos expectorantes; e por causa dos salicilatos - o principal ingrediente na aspirina - tem efeitos anti-coagulantes. Também tem o anti-inflamatório adodina. Não deve ser utilizada pelos que são alérgicos a aspirina ou por grávidas. Uma infusão das raízes tem efeitos anti-espasmódicos, adstringentes, eméticos, sedativos e vermifúgicos; também é um bom remédio para dores de cabeça e enxaquecas.
Urtiga
Urtica dioica (Urticaceae)
Ortigão, Urtiga, Urtiga-de-cauda, Urtiga-maior, Urtiga-vivaz, Urtiga-vulgar
associações: erva-andorinha (Chelidonium majus), rabaça (Oenanthe crocata), sabugueiro (Sambucus nigra), hortelã-brava (Mentha suaveolens), amieiro (Alnus glutinosa)
As folhas novas comem-se cozidas. São muito nutritivas, ricas em ferro, sais minerais e vitaminas (especialmente A e C). As folhas mais velhas e rijas podem começar a ter efeitos laxantes. Também é deixada a secar (colhida assim que floresce) para infusões durante todo o inverno; normalmente combinada com chás asiáticos. A infusão purifica e tonifica o sangue; ajuda na recuperação da anemia e baixa febres. Também tem efeitos anti-asmáticos, adstringentes, diuréticos e hipoglissémicos. Resolve facilmente problemas renais e urinários, serve de antídoto para picadas de insectos e ajuda a curar a varicela. O ácido fórmico (que produz o efeito urticário) é eficaz no tratamento do reumatismo e da artrite; pela mesma razão, também ajuda contra equizemas, caspa, neuralgias e hemorródias.
Com soluções alcoólicas leves (<4.5%) extrai-se a clorofila para uso como corante alimentar (E140). A polpa da planta inteira serve para talhar leite no processo queijeiro. Também se faz cerveja de urtiga, fermentando apenas as pontas.
Se colhida no outono, assim que começa a decair, os caules produzem fibras fortes, úteis para a manufactura de cordas, de panos e de papel de alta qualidade. Após a extração das fibras, o restante material é utilizado como biomassa de alta qualidade para compostagem, ou para a produção de açúcar, amidos, proteínas ou álcool etílico.
Também se faz um chorume (com uma ou duas semanas, dependendo da temperatura ambiente) para borrifar sobre as plantas, com efeitos repelentes e fertlizantes. O sumo e a polpa da urtiga servem para untar estruturas de madeira que se queiram à prova de água. Na tinturaria, o pigmento verde (permanente) derivado dos caules e das folhas, é muito valorizado pela sua permanência e elegância.
Quando chega a primavera, as urtigas começam logo a perder alguns dos seus nutrientes. No verão, todo o esforço é depositado nas flores e nas sementes e, aí, estãrão mais insípidas e fibrosas. Portanto, urtiga a sério é mesmo no inverno!
Umbigos-de-Vénus
Umbilicus rupestris (Crassulaceae)
Umbigo-de-vénus, cachilro, Cauxilhos, Couxilgos, conchilos, conchelo, Bacelos, Copilas, orelha-de-monge, sombrerinho-dos-telhados, Bifes, Chapéus-de-parede, Chapéu-dos-telhados.
Em fendas de rochas, troncos e cascas de árvores, muros e telhados. Por vezes no solo, sob coberto de tojais, escovais e outros matos de leguminosas arbustivas. Em substratos ácidos e húmidos. As folhas comem-se cruas ou cozidas. Um valioso pacote de vitaminas durante todo o inverno e o início da primavera. Eventualmente, as folhas tornam-se mais amargas e rijas no verão.
As folhas são ligeiramente analgésicas, o sumo e extratos ajudam a amainar a epilepsia. Um cataplasma das folhas esmagadas, ou mastigadas, serve para acudir queimaduras de pele. A mesma mistura, se ingerida, trata inflamações do fígado e da vesícula biliar.
Loureiro
Laurus nobilis (Lauraceae)
Matagais e bosques. Acompanhante de carvalhais e galerias ripícolas, por vezes dominante, dando origem a matagais fechados de porte alto (louriçais). Geralmente em vertentes sombrias ou no fundo de barrancos, sobre solos frescos.
As folhas usam-se como condimento, frescas ou secas. As bagas secas são utilizadas como tempero forte em sopas e guisados. Para fumar a carne de porco, colocam-se as folhas de louro nas brasas.
As folhas frescas usam-se em infusão; serve para aliviar dores de cabeça, e é utilizada para lavagens gerais. Também se extrai um óleo essencial das folhas (1% - 3%); tem efeitos digestivos, sedativos e purificadores. É eficaz no tratamento de inflamações e infeções bacterianas e virais. Cura bronquites e gripes e tem efeitos anti-carcinogénicos. Para produzir o azeite da baga de louro, cozem-se as bagas durante quatro horas e depois espremem-se numa prensa de madeira.
Este óleo essencial é usado para fazer sabão de alta qualidade. O loureiro ajuda outras plantas a afugentar pestes e doenças. As folhas secas servem para guardar grãos e legumes frescos por mais tempo.
Lâmios
Lamium maculatum (Lamiaceae)
Chuchas, Chupa-pitos, Coelhos, Lâmio-maculado
As folhas jovens comem-se cruas ou cozidas. Têm muita vitamina A. As folhas e as flores também podem ser secadas para infusões, que servem para tratar queixas de rins e de bexiga, diarreia e problemas menstruais, ou pós-parto. Os lâmios têm efeitos adstringentes e são principalmente utilizados como um tónico uterino, ajudando a controlar os sangramentos exagerados e também ajuda nas descargas vaginais descontroladas. As flores são anti-espasmódicas, adstringentes, depurativas, diuréticas, expectorantes sedativas, vasoconstritoras e vulnerárias. Externamente, a planta é utilizada em compressas, aplicadas em varizes. Os hidrólitos das flores e das folhas destilados servem para tratamento de problemas oftálmicos. A planta é colhida durante o verão e deixada a secar para uso tardio.
Ajuga
Ajuga reptans (Lamiaceae)
Ajuga-rasteira, búgula, cansolda-média, erva-carocha, erva-de-São-Lourenço, erva-férrea, lingua-de-boi, viuvinha.
Os rebentos e as folhas novas comem-se crus ou cozidos. Adicionam um sabor distinto e intenso a pratos complexos. As flores desenvolvidas contêm propriedades psicotrópicas que podem ser fatais em grandes quantidades.
Toda a planta é fortemente adstringente e é utilizada fresca em cataplasmas para parar hemorragias, irritações da garganta e úlceras bocais. As folhas maiores, mais amargas, mascam-se para ajudar com as bebedeiras e as ressacas. Para além de ser utilizada fresca, pode ser apanhada em flor e secada para uso posterior, ou destilada para óleos essenciais ricos em substâncias tipicamente presentes no género Digitalis (tónico cardíaco; vasoconstritor).