☰ BREAD OF AN ANCIENT FUTURE
Bread of Wander Convento da Terra - Fundação DaST |
September 2026 - October 2027 Torrão, Évora 27 European Cutural Capital, Portugal |
Year-round project, iniciated at Ponto d’Orvalho Festival 2026 |
Before the devastation of local biomes by imperial monocultures, bread would accept flours from plants other than just wheat or other Poaceae. Acorns from Quercus (oaks, holm oaks, cork oaks) covered the food needs of populations throughout the northern hemisphere (at least) since the Paleolithic, often appearing in breads and porridges, alongside seeds and tubers from hundreds of plant species. In short, the nutritional value and diversity of the collected sources far surpassed the products of the plantation.
In contrast, the vast cultivated fields overlapped the biodiverse forests and thickets. Two loaves of bread: the bread of the empire and the bread of free peoples. However, a large part of the population has distanced itself from the bread-making process, just as they have distanced themselves from the land; they only see from afar what has become landscape.
During the walk, we are invited to get closer to the land, to identify and harvest a handful of plants that will be part of a future loaf of bread. Then, we share the diverse colors and textures at the table, kneading them into acorn flour, using only a handful of annual grains.
The Bread of the Ancient Future is a project that will be developed in depth at the Convento da Terra, Torrão, over a year, as part of the Évora_27 – European Capital of Culture program.
PT
Contexto
O pão de fermentação lenta conta-nos histórias de outros tempos. Contudo, a história menos contada tem um tempo ainda mais alargado, mais antigo, que pode mesmo questionar a nossa ideia do que é um pão.
O monocultivo do trigo mudou a paisagem alentejana. Antes do arrasamento dos biomas locais pelas monoculturas imperiais, o pão aceitaria farinhas de outras plantas que não apenas o trigo ou, para o efeito, os grãos de outras Poaceae. As bolotas de Quercus (como azinheiras e sobreiros) cobriam as necessidades alimentares das populações de todo o hemisfério norte (pelo menos) desde o paleolítico, muitas das vezes figurando em pães e papas, par a par com sementes e tubérculos de umas boas centenas de espécies vegetativas. Em suma, o valor nutricional e a diversidade de fontes superava em tudo os produtos da plantação.
O pão era outro. Mas era pão, ainda assim. Em confronto, duas paisagens: os vastos campos lavrados, e as florestas e matagais biodiversos. Dois pães: o pão do império e o pão dos povos livres. Quão antiga é a paisagem que temos? Ou seja, há quanto tempo é o Alentejo esse horizonte amarelo de onde emergem apenas pães de trigo? Que pães outros poderiam regenerar a terra, as pessoas, e as suas comunidades?
As populações estão distanciadas do processo de fazer pão, como se distanciaram do território; vêem apenas de longe aquilo que se tornou paisagem. Entre Quercus e Poaceae, que entidades foram esquecidas nesta narrativa?
Pesquisa
Se um pão é capaz de simplificar a paisagem, outro pode regenerá-la, complexificando-a. Este projeto é um convite ao aproximar das pessoas à terra, da forma mais real e prática que existe. Amassar e cozer, mas também acompanhar o crescimento das coisas e participar diretamente nisso, agindo e esperando como momentos criadores de cultura. Uma cultura que seja viva depende disso; de uma convivência constante com os processos e seus ciclos.
A partir do Outono de 2026, o coletivo Landra visitam o Torrão com Clara Santiago, a cada estação do ano, para trabalhar com a população local. Começam por criar relações com agricultores, moleiros e padeiros e por fazer um levantamento das práticas, tradições, culturas e histórias locais. Numa parcela de terreno com as características do montado, após um tempo de identificação e reconhecimento, iniciam-se as intervenções no território; semeando e plantando consorciações de plantas que complementem o montado. O objetivo é aumentar a biodiversidade, ao mesmo tempo que se ganham novas fontes de farinhas com potencial panificador, e com um rico interesse nutricional.
É com base nessa pesquisa e nesta intervenção que os Landra, em contacto direto com os alunos do agrupamento de escolas do Torrão, desenvolvem atividades teórico-práticas. Começando pelo mundo microscópico que forma a base da fertilidade da terra, a partir do qual tudo existe, incluindo a massa-mãe, promove-se a ideia de que o território pode ser a fonte completa de alimento. Neste contexto, a paisagem será necessariamente outra; uma mais rica e diversa, com a qual os habitantes estabelecerão vínculos fortes e sentimentos de pertença e de vontade de cuidar.
As Padarias Reunidas são centrais para a história mais recente do pão alentejano no Torrão, agora já quase esquecidas. Reanimam-se então estes espaços, que se transformam tanto em cozinha como laboratório vivo, onde se vê ao microscópio as terras e a massa, e se experimentam novas combinações no forno comunitário. Os alunos acompanham também o trabalho de campo, no montado, aprendendo a observar o habitat e as relações entre as várias espécies; assim como a semear, plantar e colher, antes de transformar a matéria em pão.
Apresentação
A pesquisa dos Landra, é apresentada aos alunos no final de cada residência semanal no Museu Etnográfico do Torrão, complementando a exposição permanente do museu sobre o ciclo do pão. No espaço de atelier, aprende-se com a matéria recolhida e transformada, com imagens, gravações, e esboços dos quais os alunos são também convidados a intervir. Este espaço de museu estará também aberto ao público durante todo o ano, como uma instalação em processo, que se tornará mais completa e complexa ao longo dos meses de residência e atividades.
Todo o processo, entre recolhas e práticas, incorpora também uma publicação final, dedicada aos pães e às paisagens futuras. Este manual inclui conteúdos artísticos e teórico-práticos como: as bases do desenho de sistemas agroflorestais adaptados ao clima da região, os métodos de colheita e de processamento manual das plantas, os variados estilos de pão resultantes destas farinhas diversas, destacando a importância da ciência invisível e lenta da massa-mãe. Será também acompanhado de uma faixa de som, que combina uma leitura do texto com descrições dos vários modelos e diagramas visuais, assim como excertos sónicos de vozes e ambientes.
Exposição
No final do ciclo do Torrão, haverá um evento aberto ao público, marcando a instalação final, cuja exposição terá lugar no Museu Etnográfico. A exposição dos Landra reúne os elementos que têm vindo a pesquisar e a trabalhar ao longo das várias residências, expandido para o espaço os conteúdos da publicação. O elemento principal é o pão, no centro da sala, apresentando-se à volta deste elementos de uma paisagem agora alargada e complexificada - dando origem à sua criação. O espaço inunda-se com cores, Landra - Terra Quente texturas e formas decorrentes do processo (das várias terras, plantas, farinhas e massas) que se espalham pelo espaço neste formato de paisagem expandida. As componentes visuais incluem também desenhos e diagramas (tanto dos Landra como das crianças participantes), que descrevem as relações das espécies, das consociações, dos tempos e das transformações. Dá-se ainda visibilidade ao mundo dos microrganismos, traduzindo em imagem análises microscópicas - tanto os organismos unicelulares das leveduras (essenciais para o crescimento da massa-mãe) como o resto da rede da vida do solo, que ano após ano mantém a terra fértil e dá corpo ao pão verdadeiramente rico.
A exposição é acompanhada de excertos da faixa sonora, criada para a publicação,
trazendo uma componente mais contextual dos elementos visuais mais abstratos. Ouvese a descrição das várias espécies semeadas e plantadas, assim como o som da terra, do
cavar, regar e esperar, onde se sente o vagar da paisagem ao vento. Ouvimos histórias e
até cantos, assim como ensinamentos de como amassar o pão e dar continuidade à
massa-mãe. Contamos ainda com pães experimentais produzidos pelos alunos, nessa
mesma semana, e várias amostras das plantas e das farinhas que delas resultam. No dia
anterior à inauguração, começa-se com uma visita ao local da agrofloresta, onde o futuro
cresce. Durante a tarde faz-se o lançamento do manual, e convida-se a comunidade local
a amassar vários pães que ficam a fermentar durante a noite. No dia seguinte, o pão vai a
cozer e será repartido por todos na exposição. A massa-mãe será também partilhada para
que a população local possa continuar a criar pão nas suas casas.
Disseminação
Fragmentos da exposição circulam para vários municípios das proximidades, para acompanharem a apresentação da publicação e ser dada continuidade ao projeto:
Em Arraiolos, haverá uma apresentação no espaço artístico Cortex Frontal, que tem como base com uma forte componente de educação e atividades paralelas. A publicação será apresentada em conjunção com uma atividade de amassar o pão do futuro antigo, que poderá ser provado no dia seguinte na antiga Fábrica de Massas Aliança, onde se encontra um antigo forno a lenha, e onde os Landra ficarão sediados. Haverá também uma visita ao montado adjacente à Fábrica, com o intuito de explicar o processo de cultivo integrado.
Com a parceria da AET, Escola da Arraiolos, os alunos estarão presentes nesta apresentação, inseridas como parte do Plano Cultural Escola, Plano Nacional das Artes. Estes alunos terão também estado a acompanhar o processo desenvolvido no Torrão, e serão convidados a recriar, no ano seguinte, as práticas num terreno em Arraiolos. No Vimieiro, segue-se o mesmo modelo com o Centro Interpretativo do Mundo Rural. A publicação será apresentada com a atividade de amassar o pão, que será cozido no dia seguinte na Fábrica da Massa, com uma nova visita ao montado.
Também no Concelho de Évora este trabalho encontra outro ponto de disseminação. No
monte da amOrada em Mora, a sede da associação da qual a Clara Santiago faz parte, os
processos do pão e do cultivo serão partilhados com os alunos da Escola Básica e
Secundária de Mora, dando início a um trabalho de continuidade a realizar no decorrer do
ano letivo seguinte. Estes alunos têm já estabelecida uma relação de proximidade com
este lugar, que visitam no contexto de atividades pedagógicas desde 2020. Através do
manual e tendo como referência o trabalho desenvolvido com os alunos no Torrão, a
relação com o território poderá continuar a crescer, agora através do pão semeado,
colhido e comido.
Por último, a disseminação do projeto segue para Mértola, onde será apresentado no espaço da Terra Sintrópica, com a parceria da Escola de Mértola. Aqui, traremos a apresentação do manual, o amassar e o comer o pão do futuro antigo, também a pessoas já com prática de criação de processos regenerativos e agroflorestais. As descobertas e propostas do manual poderão assim ser prontamente aplicadas, seguidas e partilhadas com a grande rede de pessoas e projetos dos quais fazem parte, multiplicando o impacto e duração do projeto na futura paisagem alentejana.
Por último, a disseminação do projeto segue para Mértola, onde será apresentado no espaço da Terra Sintrópica, com a parceria da Escola de Mértola. Aqui, traremos a apresentação do manual, o amassar e o comer o pão do futuro antigo, também a pessoas já com prática de criação de processos regenerativos e agroflorestais. As descobertas e propostas do manual poderão assim ser prontamente aplicadas, seguidas e partilhadas com a grande rede de pessoas e projetos dos quais fazem parte, multiplicando o impacto e duração do projeto na futura paisagem alentejana.